Faroeste Caboclo marcou toda um geração

Todo fã de Legião Urbana sempre teve curiosidade de saber o que era, afinal, a Rockonha?

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A produção, inspirada na música homônima do líder do Legião Urbana, Renato Russo (1960-1996), para os que hoje estão acima dos 30 não apresenta maiores novidades. Trata-se da transcrição quase literal da narrativa contida em um dos maiores hits dos anos 1980. Mas não é que, a partir de um tema previsível, o diretor René Sampaio conseguiu propor um longa capaz de prender a atenção do início ao fim? O mérito está em criar um filme que, mesmo com todo parentesco possível, consegue se distanciar da música e da letra e propor uma imersão ao passado recente de uma geração. Passa-se numa época de Brasília que, para aquela turma, a vida era ditada pela rebeldia simbolizada pelo rock, sexo e drogas.

A história é a da trajetória de João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira), desde a infância no interior da Bahia até a ida para Brasília, no início dos anos 1980, onde se envolveu com o tráfico. Ajudado por Pablo (Cesar Troncoso), um primo distante, peruano que vende drogas da Bolívia, ele vai trabalhar numa carpintaria, mas também se envolve com o tráfico de drogas. Um dia, por acaso, conhece Maria Lúcia (Ísis Valverde), filha de um senador (Marcos Paulo, em seu último trabalho no cinema). Enquanto os dois se apaixonam, João mergulha cada vez mais numa escalada de crime e violência – até encontrar seu principal inimigo, o playboy e traficante Jeremias (Felipe Abib), rival nos negócios e no coração de Maria Lúcia. As cenas intensas de amor e vingança espelham, de uma maneira quase literal, em 100 minutos, a epopeia narrada por Renato Russo de jeito bastante inusitado para uma canção.

‘Faroeste caboclo’, com nove minutos e três segundos de duração, desde sua criação já sinalizava a possibilidade de virar um futuro roteiro de cinema, pelo caráter altamente descritivo e visual da letra. Lançada em 1987 pelo Legião Urbana, no álbum ‘Que país é este?’, narra em 168 versos a saga de João de Santo Cristo, da infância no sertão baiano à morte ainda jovem em Brasília. Sucesso de nascença, nunca deixou de ser cantada, desde então, pelas gerações seguintes, apesar da natural dificuldade em decorar toda a letra. Os roteiristas Marcos Bernstein e Victor Atherino também enfrentaram desafios para levar contexto tão vasto às telas, o que os obrigou a optar por licenças poéticas, deixando de fora alguns trechos em nome da fluência da trama. A opção não prejudicou o resultado. Pelo contrário. Ao se distanciar da narrativa literal é que o roteiro ganha mais força para ganhar a atenção do espectador.

Outro mérito do filme é o elenco. Boa história, encenada por um grupo pequeno de atores experientes nos principais papéis, garante agilidade a uma típica Cinderela às avessas: uma garota de classe média alta que se envolve e se apaixona pelo jovem negro, assaltante e sem futuro. Dar conta de um roteiro cheio de clichês, tirando proveito das situações desse faroeste ambientado na cidade grande, é a missão na qual mergulhou o elenco. Teve gente que se saiu melhor. Fabrício Boliveira, conhecido do público depois da minissérie Subúrbia, da Rede Globo, conseguiu tirar proveito do papel do Santo Cristo, assim como Ísis Valverde. Como Maria Lúcia, a jovem atriz mineira se superou.

‘Faroeste caboclo’ tem outro desafio, que é a proximidade com produção também inspirada no legado de Renato Russo. ‘Somos tão jovens’, filme de Antonio Carlos da Fontoura, recém-lançado e ambientado no início da carreira de Renato Russo, tem tido sucesso em todo o país. Repetir o mesmo com Faroeste caboclo não é tarefa das mais fáceis. Porém, a julgar pelos seguidores saudosistas do Legião, parece que o novo longa-metragem deve trilhar caminho parecido. Somente o trailer oficial já foi visto no YouTube, até o início da tarde de ontem, por mais de 2,5 milhões de pessoas.


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