A guerra e a verdade nas eleições 2018 no Brasil

No Brasil, o uso da Internet é regulado pela lei nº 12.965 que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres tendo como fundamento o respeito à liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento. Para as eleições 2018, a resolução nº 23.551 irá regular a propaganda eleitoral, garantindo a livre manifestação de eleitores, a proibição de uso de perfis falsos e de uso de robôs para manipular conteúdo.

No entanto, o debate sobre o conteúdo e o combate às fake news na internet tem ecoado em uma racionalidade autoritária e tem sido instrumentalizado por grupos econômicos, convertendo se em nova forma de censura, a “censura 2.0”.

Quais interesses escusos teriam grupos políticos que patrocinaram o Golpe de 2016 e o Facebook em contratar agências para monitorar a disseminação de notícias falsas com um falso pretexto evitarem que o debate político seja contaminado por manipulações?

Para recordarmos 2016, segundo o levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas da USP na semana que antecedeu o impeachment da presidente Dilma, numa verdadeira guerra da desinformação nas redes sociais, revelou que três das cinco reportagens mais compartilhadas por brasileiros no Facebook eram falsas.

Em 2018, na greve dos caminhoneiros que causou impacto nas cidades e nas redes sociais, provocou uma enxurrada de boatos na internet, principalmente no aplicativo do WhatsApp, notícias como “Governo vai cortar a internet e bloquear o WhatsApp por causa da greve” foram exemplos de mentiras espalhadas pela rede.

A guerra mais explícita recentemente foi o debate que vem ocorrendo em torno da visita à Lula de um representante do Papa Francisco. Por um lado portais de notícias que não se alinham às grandes corporações de mídias no país, fizeram a cobertura ao vivo da visita e foram acusadas de espalhar fake news. A batalha pela verdade da informação enveredou pela manipulação da grande mídia que tentou desqualificar a cobertura da mídia alternativa, além da ameaça de censura pelo Facebook aos portais alternativos.  Posteriormente, a grande mídia foi desmentida pelo Papa em nota convalidando a verdade sobre a visita.

Sabemos que diversos serviços oferecidos para políticos com metodologias que trabalha a segmentação de eleitores em categorias “psicológicas” são essenciais para que a campanha trace suas estratégias. Nos Estados Unidos o método Obama foram pautadas na tecnologia e tinham o objetivo de engajar e incentivar a população a votar. Para conquistar esse objetivo Obama investiu em ações na web e nas redes sociais, arrecadando dinheiro, monitorando a opinião pública e organizando voluntários através da internet.

Os interesses são tão grandes que na última eleição nos EUA foi marcada por acusações de que os próprios funcionários da rede social Facebook atuaram como consultores na campanha de Trump, que investiu pesadamente em testes de performance de diferentes anúncios na plataforma, e a de que a Rússia pagou para amplificar na rede mensagens para estimular a divisão política nos EUA.

Neste novo processo histórico contemporâneo, a comunicação é o agente construtor da realidade, nossa percepção do mundo é uma construção cultural, sendo a comunicação quem produz e interfere nas percepções. Nos meios de comunicação não se reproduz apenas ideologia, mas se constrói a cultura, constitui-se uma mentalidade coletiva. A mídia, de forma geral, é a base de trocas simbólicas, além de ser também, abrangente, com imensurável capacidade de alcance no meio social.

A junção entre os meios de comunicação de massa e a microinformática, aliada ao crescimento das redes comunicacionais, modificam não só no cotidiano, como também na maneira como o homem percebe o mundo e o seu semelhante.

Como analisamos acima, esses atores sociais, são inseridos no processo eleitoral com garantias legais para interagir nos espaços de interação, lugares de fala construídos pelos atores de forma a expressar elementos de sua personalidade ou individualidade. Neste sentido, podemos afirmar que as redes sociais são um elemento dinâmico com o aparecimento da cooperação, da competição e do conflito evidenciados nos processos da realidade brasileira após a redemocratização.

Em eleições passadas, por exemplo, a TV era utilizada pelos políticos que com os seus conteúdos criados, milhões de pessoas consumiam tais conteúdos de forma passiva. Na Internet, como se demonstrou, agora todo mundo tem a possibilidade de criar conteúdos, de fazer rádio, televisão, cinema, jornalismo. E o mais importante: de interagir com outros. Nesse sentido, enquanto a TV é, em grande parte monólogo, a internet é, principalmente, diálogo. E se naquele período, o político tinha que ouvir, mas do que falar, agora achou meios para interagir de forma eficaz por meio de técnicas capaz de mudar corações e mentes.

Alan Roberto Ferreira – Formado em Ciências Sociais, foi diretor da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Santo André, militou pela Juventude do PT onde foi secretário de Juventude e da Secretaria Geral do PT de Santo André.


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